FC19#14 ⁉Quando a incerteza é o fato

Conflitos entre incertezas e fatos, a novela da volta às aulas e as novidades sobre as vacinas são nossos destaques

Eu sou Cláudio Cordovil, e hoje é dia 3 de agosto de 2020.

💪Bem-vindo ao primeiro ano do resto de nossas vidas!

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⌚Hoje temos uma contagem de 2.297 palavras, ou uma leitura de 9’30’’.


Olá,

A semana passada foi pobre em acontecimentos acerca da Covid-19, a não ser o seu inexorável curso; devastador, no caso do Brasil, sem suscitar maior clamor de quem quer que seja.

Os que ainda clamam, constatam, sem surpresa, que clamam no deserto.

Da Organização Mundial de Saúde, chegou, no sábado (1/8), a informação de que esta será uma emergência sanitária muito longa e que as pressões socioeconômicas poderão diminuir as respostas para abreviá-la.

Em Berlim, uma passeata com cerca de 17 mil manifestantes que protestavam contra as restrições impostas pela Covid-19, deveria preocupar a fração esclarecida do Ocidente.

Afinal, vem de um dos cantos do planeta de onde sempre se esperou maior lucidez, ao menos no pós-guerra. Era composta por militantes da extrema-direita, do movimento antivacina, adeptos de teorias da conspiração e outros insatisfeitos de plantão (eles estão sempre ao redor).

Na quinta-feira passada (30/7), Tedros Adhanom, diretor-geral da OMS, afirmou que, em muitos países, mais de 40% das mortes provocadas pela Covid-19 foram em asilos e, em alguns países ricos, essa taxa chegou a 80%. No Brasil, a cobertura sobre o tema é bem tímida, e suspeito que o massacre nestes espaços seja maior do que o apontado pela nossa imprensa varonil. Já dedicamos um bom espaço de nossa newsletter a este tema.

Tedros destacou também que picos de transmissão registrados em vários países recentemente foram provocados, em parte, por jovens que relaxaram suas medidas de distanciamento social no verão do Hemisfério Norte. A eles se atribui agora a persistência misteriosa da infecção em altos patamares em alguns países do mundo, e o contágio entre os mais idosos.

Jovens não são invencíveis. Podem morrer e podem transmitir a doença.

Tedros Adhanom, diretor-geral da OMS

Agora vamos a alguns destaques da semana, um tanto tímidos talvez, mas é o que temos para hoje. Prepare-se para uma chuva de divertidas expressões de antigamente, porque ando meio nostálgico.


😕Se o jornalismo é o lugar dos fatos, como comunicar incertezas?

Imagem de Gerd Altmann por Pixabay

Na semana passada, falamos de certas expectativas exageradas com relação à vacina e da cautela recomendável.

Promessas terapêuticas são a razão de ser da atividade da indústria farmacêutica desde as Pílulas de Vida do Dr. Ross ou antes.

Por conta disso, não é fácil para o jornalista blindar-se contra a influência de lobbies e grupos de interesse. Isso exige preparo e estudo, especialmente quando se está cobrindo tecnologias emergentes e/ou de saúde.

A credulidade apressada da opinião pública com relação à vacina pode se explicar por inúmeros fatores. Um deles seria a sua pobre alfabetização científica (este não é um problema restrito ao Brasil).

Mas parte desta ignorância coletiva é de responsabilidade dos cientistas, precisamos dizer. Especialmente no modo como lidam com as incertezas inerentes a seus estudos, junto à mídia.

As incertezas são a dimensão envergonhada, o bode na sala, o rei desnudo, de qualquer processo de busca de conhecimento, especialmente científico.

Entre pares e em corredores de laboratórios, cientistas conversam sobre a incerteza de seus estudos. O mesmo não acontece na comunicação midiática da ciência. E talvez tenha sido por ocultar as incertezas científicas, por tanto tempo, do campo de visão da opinião pública, que os cientistas agora colhem uma parcela de incompreensão e fake news.

Tivessem informado a sociedade sobre como a ciência verdadeiramente funciona, expectativas infundadas a seu respeito não teriam vicejado entre os negacionistas. Esta é minha modesta opinião.

O negacionismo científico é fenômeno complexo. Mas a falta de uma alfabetização científica da sociedade sobre os limites e potencialidades da ciência, certa visão idealizada da mesma, faz esta ser hoje presa de aspirações irrealistas, combustível para as fake news.

Uma espécie de acordo tácito entre cientistas e jornalistas fez as incertezas das pesquisas desaparecerem do noticiário científico. Entrevistar cientistas sobre as incertezas acumuladas em seus processos de investigação seria algo como conversar sobre corda em casa de enforcado. E poucos tentaram.

O resultado está aí. Uma cobertura esperançosa, abertamente otimista, em meio à devastação provocada pela pandemia. Já há quem descarte a produção de uma vacina para setembro desse ano, como antes havia se anunciado.

É possível que o amplo reconhecimento público de incertezas da parte de cientistas fortaleça o argumento dos negacionistas. Mas será que afirmações tecno-otimistas e triunfantes sobre a tecnologia não suscitam o mesmo efeito colateral?

Sabe-se que as indeterminações da ciência e tecnologia contemporâneas se afiguram desconfortáveis no espartilho do ‘fato’ jornalístico, e comprometem a imagem de infalibilidade, fundamental para a materialização dos desígnios comerciais e econômicos das tecnologias.

Mas, antes de mais nada, é importante deixar algo bem claro: A ciência, qualquer que seja ela, é tanto produtora de certezas quanto geradora de incertezas. O trabalho científico não apenas reduz a incerteza; ele ativamente a constrói.

Mas isso não impede que o cientista, em certas circunstâncias, prefira omitir do debate público esta dimensão inerente à atividade científica. Receia uma suposta perda de credibilidade da atividade, quando a revelação de sua existência se dá. Não acredita que o público seja capaz de processá-la adequadamente e acha que isto terá impacto sobre as percepções públicas de risco, por exemplo.

Por estas e outras, os cientistas buscam gerenciar a incerteza. E fazem isto de forma distinta no laboratório, no discurso científico em publicações, e em settings públicos.

Quando são geradas no laboratório, ou seja, em um contexto local, os cientistas podem tanto transformá-las em certezas universais como conservá-las como incertezas. Alegações (claims) de verdade universal representam o primeiro caso. No segundo, os cientistas estão falando de um “gap universal no conhecimento” que precisaria ser preenchido.

Na construção de alegações de verdade em settings públicos, acreditam ser fundamental remover as contingências, os pontos fracos, as zonas de sombra, dos relatos. Já nas revistas científicas, revisadas por pares, as incertezas estão todas presentes.

Do lado dos jornalistas, também há problemas. Eles sempre tratam a ciência como um empreendimento mais sólido e certo do que realmente é. Fazem isto de diversas maneiras, segundo alguns estudos acadêmicos. Menos ressalvas e limites (caveats) de um estudo são encontrados em um texto jornalístico (quando comparado a um artigo científico sobre o mesmo tema). Além disso, muitas matérias jornalísticas carregam mais certeza sobre prognósticos de pesquisas do que a realidade permite inferir.

Não há ainda uma receita para se comunicar incertezas científicas na mídia, mas a sua inclusão nas discussões públicas sobre novas tecnologias daria um caráter mais democrático às deliberações a seu respeito.


💉Nossa rodada semanal pelas vacinas

Imagem de Myriam Zilles por Pixabay

Três vacinas potenciais (Moderna, Bionthech/Pfizer e Oxford/AstraZeneca) estão em fase final de testes.

E, se tudo correr bem, suas primeiras doses estarão disponíveis no final desse ano. Calma! Antes de mais nada terá que se discutir quem vai recebê-la primeiro. Negros e hispânicos devem recebê-la primeiro, dado o alto impacto da pandemia sobre suas comunidades? Ou os profissionais de saúde? Ou mesmo os idosos?

O Washington Post traz uma matéria sobre a logística da vacina e os problemas bioéticos a serem considerados. Helen Branswell, do STAT, mostra a briga-de-foice-no-escuro que é esse debate nos EUA. Correndo por fora (sempre!), a Rússia tenta atingir a marca de ser o primeiro país a lançá-la.

Planeja fazê-lo em 10 de agosto, com as primeiras doses sendo entregues a trabalhadores essenciais. Diante do anúncio precipitado, especialistas aconselham colocar as barbas de molho, ou, para os mais jovens, ter cautela.

Já a Moderna anunciou, na terça-feira (28/7), que sua candidata a vacina protegeu vias aéreas de macacos rhesus contra o Sars CoV-2. Os achados complementam aqueles anunciados na semana passada em seus testes em humanos. Na quinta-feira (30/7), foi a vez de a Johnson & Johnson anunciar seus testes bem-sucedidos com macacos. Já alguns cientistas partiram para o faça-você-mesmo, testando uma vacina em si mesmos, entre eles Georges Church, um famoso geneticista de Harvard.

Na corrida das vacinas, a Wired mostra a situação das quatro primeiras colocadas até o momento. Mas já há quem acredite que falar em corrida não seria muito adequada, porque provavelmente mais de uma vacina, de mais de um fabricante, será necessária para combater a Covid-19.

Já os EUA anunciaram na sexta-feira (31/7) que vão investir 2,1 bilhões de dólares nos testes e na fabricação de vacina (vídeo) desenvolvida em parceria pelas empresas Sanofi e GSK. No mesmo dia, aqui por estas bandas, a Fiocruz informou que assinou acordo, juntamente com o Ministério da Saúde e o laboratório AstraZeneca para garantir a transferência de tecnologia para a produção do princípio ativo da ‘vacina de Oxford’. Nele, assegura-se que 100 milhões de doses da vacina serão produzidas no Brasil.

💼E segue a novela da abertura das escolas

Imagem de 潜辉 韦 por Pixabay

Entre a cruz e a caldeira: Assim pode ser definida a situação dos pais que hesitam em enviar seus filhos de volta à escola. Na maior parte do Brasil, com mais de 120 dias com as escolas fechadas, há o risco de perdas como a falta de socialização dos estudantes, mas isso talvez possa ficar em segundo plano, diante do risco de morte por Covid-19.

Alguns especialistas também apontam a fadiga dos estudantes com as aulas remotas e o aumento da desigualdade que este estado de coisas está suscitando para quem sequer tem uma conexão de internet. O USA Today consultou quatro especialistas em educação para ajudar os pais a transformarem sua casa (agora transformada em sala de aula) em um lugar que ainda se pode chamar de “lar”.

Nos EUA, com a proximidade da retomada do período letivo, para agosto ou setembro, o debate também foi intenso, na semana passada. O New York Times informou, na quarta-feira (29/7), que os sindicatos de professores ameaçam entrar em greve se as escolas reabrirem ou não oferecerem condições de segurança para professores e alunos.

Por outro lado, sofrem pressão descomunal porque, afinal, os pais só podem retornar ao trabalho se os filhos estiverem em sala de aula. Há relatos aos sindicatos de fadiga de professores por conta das horas excessivas que passam em aulas remotas. No sábado (1/8), professores de escolas particulares do Rio de Janeiro decidiram em assembléia virtual manter a greve iniciada em 6 de julho. Pesquisa realizada em julho nos EUA revelou que 60% dos pais desejam adiar a reabertura das escolas até que a pandemia esteja sob controle. Outro estudo mostra que negros e hispânicos, os mais afetados pela pandemia, estão mais inseguros que os brancos com relação ao retorno das aulas, além de se preocuparem com o ensino remoto.

A preocupação de sindicatos e professores não é de todo descabida. Levantamento do mesmo jornal verificou que, ao menos, 6.600 casos de Covid-19 estavam ligados a cerca de 270 faculdades públicas e privadas. Já há muitas faculdades desistindo de retomar as atividades presenciais, como estava previsto, na medida em que o número de casos por lá agora (outono) é maior do que o observado em muitos locais na primavera.

O New York Times (sempre ele!) também apurou que, com base nas atuais taxas de infecção nos EUA, mais de 80% dos americanos moram em um condado (uma subdivisão de um Estado) onde pelo menos uma pessoa infectada apareceria em uma escola com até 500 pessoas (entre alunos e estafe) na primeira semana, se as aulas presenciais começassem hoje.

De todo modo, a ciência sobre as taxas de infecção em escolas ainda é inconclusiva, com especialistas afirmando que o assunto ainda não foi estudado com a profundidade necessária. O WBUR traz algumas dicas sobre como proceder nestes casos (em Massachussets), mas algo dali se aproveita para a situação brasileira. Já o USA Today traz um resumo de tudo que se sabe sobre o assunto até o momento.

Mas, no caso brasileiro, para respostas mais assertivas acerca da segurança de mandar os filhos para as escolas, as taxas de infecção precisariam estar caindo nas respectivas localidades, o que ainda não é realidade em muitos estados.

Estudo publicado no Journal of the American Medical Association (JAMA) revelou que, para as faculdades reabrirem com segurança, os estudantes deveriam passar por testes rápidos a cada dois dias. Detalhe, o custo desta prevenção para as faculdades americanas seria de 470 dólares por estudante a cada semestre. Em tempo, na quinta-feira (30/7), a imprensa brasileira noticiou que o Ministério da Saúde tem 9,8 milhões de testes parados por falta de reagentes. Tire suas conclusões.


Rápidas

ÁLCOOL GEL : A Food and Drug Administration (FDA) desaconselhou o consumo de mais de 100 marcas de sanitizantes para as mãos. Uma das alegações é a suspeita de conter metanol em sua composição.

NOSSA LINDA JUVENTUDE: Com a abertura de bares e restaurantes em alguns estados norte-americanos, começam a surgir evidências de que os jovens que trabalham fora de casa ou frequentam bares e restaurantes estão transmitindo a Covid-19 para seus familiares com quem residem. O tema foi objeto de comentário de Tedros Adhanom, diretor-geral da OMS, na semana passada. Uma médica da cidade de Nova Iorque compartilha conosco seu relato do impacto da doença sobre os adolescentes de que ela trata.

Um novo relatório do Centro de Controle e Prevenção de Doenças em Atlanta, divulgado na sexta-feira (31/7), sugere que crianças de todas as idades são suscetíveis ao coronavirus e podem transmiti-lo. A notícia certamente terá implicações na decisão de se enviar ou não crianças para a escola nos próximos meses naquele país. A análise detalha o caso de um surto em que 260 crianças e funcionários de um acampamento contrairam o virus menos de uma semana depois da atividade recreativa. As crianças tinham em média 12 anos de idade.


Destaques da Rede CoVida

✅ Considerações sobre a interpretação dos testes na Covid-19

✅ Imunidade de rebanho sem vacina é irresponsável

✅ Webinário: Desafios da produção e acesso à vacina


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