FC19#16 💉Vacina russa: o 'outro lado'

As verdadeiras dimensões da tragédia brasileira e o que faltou dizer sobre a vacina russa são nossos destaques.

Eu sou Cláudio Cordovil, e hoje é dia 18 de agosto de 2020.

💪Bem-vindo ao primeiro ano do resto de nossas vidas!

Ferramentas Covid-19 ðŸ›  Ã© uma newsletter destinada a profissionais de saúde, pesquisadores, professores, jornalistas e público em geral, produzida pela Rede CoVida.

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⌚Hoje temos uma contagem de 2.429 palavras, ou uma leitura de 10 minutos.


Olá!

“Todo mundo gosta de acarajé”, ensina Dorival Caymmi. Mas, acrescenta: “O trabalho que dá pra fazer que é”.

Para lhe entregar, toda semana, esta singela newsletter, algo entre 100 a 130 matérias são consultadas na imprensa anglófona. Por semana! A varredura feita por humano (sem robôs) consome algumas horas semanais, e mais outras tantas, para a redação deste boletim noticioso. É um trabalho feito em bases totalmente voluntárias. Digamos que é um ato de generosidade, movido a um grande senso de espírito público, coisa que anda faltando ultimamente.

Não se tem aqui a pretensão de lhe informar o que já teve a oportunidade de ler/ver na mídia nacional. Mas, sim, trazer sempre algo com uma angulação diferente, uma pauta peculiar, uma matéria curiosa ou esclarecedora, a partir do olhar de um veterano jornalista de ciência e pesquisador em saúde pública.

Naturalmente, dados os limites de espaço, alguma coisa fica de fora. Mas tudo aqui é feito com muito amor, igual aquela comida com certo tempero dos antigos reclames publicitários.

Agradeço a retribuição que você me concede por este trabalho, através de sua leitura. Se para você ela significa 10 minutos de um dia, para quem a produz são algumas boas horas de trabalho semanais. Se gosta do que fazemos, compartilhe esta newsletter com seus amigos. Se não gosta, compartilhe com os inimigos. 😀


A vacina russa: ouvindo o “outro lado”

Os russos são os pais do ‘passinho’. 😆

Você já sabe! Na terça-feira passada (11/8), a Rússia anunciou o registro da primeira vacina contra a Covid-19. Informa-se que o faz com menos de dois meses de testes e sem concluir a Fase 3 dos ensaios clínicos, visando eficácia e segurança. E isto tem dado o que falar. A BBC elencou as quatro principais dúvidas a respeito da vacina.

O First Draft, em sua newsletter, anunciou que esta(va) monitorando a divulgação acerca da mesma em vários países e não constatara desinformação (misinformation) substancial a seu respeito, a não ser com relação a estimativas de prazo.

Mas admite que o potencial para desinformação futura é alto, “especialmente se a vacina acabar não sendo segura”. “Desinformação”, conceitualmente, é uma informação falsa divulgada por alguém que sabe que é falsa.

O suposto arroubo nacionalista da Rússia foi relativizado pelo First Draft , que apontou que o “nacionalismo da vacina” não é privilégio dos russos. Na corrida pela mesma, inúmeras comunidades têm esquecido os preceitos da cooperação internacional desde o início da pandemia. Como destaca o First Draft, este é também o caso de comunidades nos EUA, Reino Unido, Índia e Madagascar. A este respeito, o diretor-geral da Organização Mundial de Saúde, Tedros Adhanom, já se pronunciara (6/8), antes mesmo do anúncio oficial da vacina russa.

Compartilhar vacinas ou outras ferramentas realmente ajuda o mundo a se recuperar; a recuperação econômica pode ser mais rápida e os danos da Covid-19, reduzidos.

Tedros Adhanom- Diretor-geral da OMS

Entrevistada pela First Draft, Ana Santos Rutschman, professora da Faculdade de Direito da Universidade St. Louis destaca que o nacionalismo da vacina “pode representar um problema para aqueles que esperam impedir a propagação do vírus e pode levar à exclusão de populações vulneráveis em tratamentos que potencialmente salvam vidas”.

Em artigo publicado no blog do Hastings Center, Jonathan Moreno argumenta :

O prestígio nacional e a recompensa financeira combinam-se de maneira única e poderosa em uma pandemia global que ameaça revisar a história. Se algum dia as normas bioéticas internacionais puderam ser comprometidas, este é o momento, uma crise de saúde pública que apresenta riscos existenciais de desestabilização geopolítica.

No entanto, ele acha que ainda é cedo para tirar conclusões acerca de um nacionalismo bioético da parte de China e Rússia. Para ele, em bom português, o jogo ainda está sendo jogado.

Nada relatado até agora indica que os dois países não serão, em última análise, guiados por padrões de desenvolvimento de medicamentos internacionalmente reconhecidos.

Jonathan Moreno

Não é o que pensa Nigel McMillan, da Universidade Griffith, na Austrália, que classifica a manobra russa como uma “arrogância perigosa”.

Isso é o nacionalismo da vacina em andamento (o nome “Sputnik V” diz tudo) e o perigo aqui é que, se houver problemas no futuro , em termos de eficácia ou segurança, ela colocará todo o esforço da vacina em uma posição muito difícil, pois as pessoas perderão a confiança ou a esperança de que qualquer uma funcione.

O Think Global Health traz uma detalhada matéria sobre os interesses geopolíticos envolvidos no anúncio do registro da vacina russa, ainda que com certo viés ocidentalocêntrico (ou globalocêntrico, como preferir).

Rodrigo Turrer, em matéria (15/8) no Estadão (paywall), ouviu especialistas que “alertam que atropelo de regras para se chegar primeiro a um imunizante – obsessão que evoca as corridas e espacial e nuclear – pode tornar a pandemia mais duradoura, ao impedir uma alocação mais eficiente das doses”. Faz sentido. Como dinheiro não estica, se os países resolverem alocar expressivos recursos num primeiro momento para vacina que mais tarde se revele um blefe, poderá faltar dinheiro para investir em vacinas mais eficazes e economicamente eficientes.

Descontadas estas preocupações tipo “guerra-fria-e-corrida-armamentista”, repercutidas pela mídia, o que realmente importa, no caso da vacina russa, para além do já exaustivamente tratado eventual problema da eficácia e segurança da mesma?

Especialistas ouvidos por The Verge apontaram “três grandes preocupações” :

  1. Se a vacina não for segura ou tiver efeitos colaterais graves, ela pode prejudicar a vida das pessoas.

  2. Se a vacina não funcionar, as pessoas podem se mover pelo mundo com uma falsa sensação de segurança, potencialmente exacerbando a propagação da doença.

  3. Se qualquer uma dessas coisas acontecer, há um risco muito sério de que a desconfiança das pessoas nas vacinas aumente, tornando mais difícil para as autoridades de saúde pública conterem os futuros surtos da doença.

Como jornalista, senti falta, na cobertura midiática, de alguma fonte que oferecesse o famoso “outro lado” da questão. Procurei para vocês, o tal “outro lado”, muito pregado, mas pouco praticado. Vem de Kyrill Dmitriev. um investidor russo, condecorado na França e na Itália, “por sua grande contribuição para a implementação de projetos de investimento internacional e para o desenvolvimento socioeconômico da Federação Russa”. Ele traz alguma contextualização a este debate. Há uma versão em francês. Na verdade, os russos trabalham com a plataforma tecnológica que deu origem a esta vacina desde a década de 1980.

O ceticismo entre políticos e jornais internacionais emergiu assim que a Rússia anunciou seus planos para a produção em massa da vacina contra a Covid-19. Quando falei com algumas mídias ocidentais, elas recusaram-se a incluir fatos-chave sobre a vacina russa da Covid-19 em suas matérias. Vemos tal ceticismo como uma tentativa de prejudicar nossos esforços em desenvolver uma vacina funcional que parará a pandemia e ajudará na reabertura da economia global.

Kyrill Dmitriev


✈No Brasil, caem quatro aviões/dia

E ninguém parece se importar muito.

O filósofo Theodor Adorno dizia que a finalidade da Educação deveria ser fazer com que Auschwitz jamais se repetisse. Talvez possamos parafraseá-lo e dizer que a finalidade do jornalismo, em tempos de pandemia, é fazer com que 100 mil mortes jamais se repitam. No momento em que preparo esta newsletter, já chegamos a 107.914 mortos.

O governo tem argumentado que o país tem “um dos menores índices de óbitos por milhão entre as grandes nações”. A afirmação não procede. A taxa do Brasil está entre as piores do mundo e, como as mortes continuam em ritmo alto, o país perde mais posições nesse ranking.

Mas, de todo modo, o momento não é propício a comparações internacionais de taxas de mortes por milhão, segundo os pesquisadores. Isto porque outros fatores influenciam estes números, como: o estágio da pandemia, o tamanho da população, a densidade demográfica, o perfil etário e o nível de testagem, dentre outros.

Os jornalistas de ciência aprendem em seu ofício o quão complexo é dar a real dimensão a seu leitor do que sejam números gigantescos. Nosso cérebro parece não ser muito apto a compreender a extensão de grandes números (nem dos diminutos). Assim, na semana passada, ainda no rescaldo do choque (ou do que ainda deveria chocar), algumas notícias tentaram nos dar uma ideia da dimensão da tragédia.

O Estado de Minas (14/8) emplacou uma reportagem interessante, onde chega a diagnosticar uma ausência de comoção nacional diante do massacre.

A sociedade de uma forma geral não se comove, não se revolta, não se transporta para o lugar dessas famílias enlutadas: não age contra o massacre, o banho de sangue, o genocídio das vítimas da violência e, de igual maneira, a situação também se repete nesta pandemia. (…) Chegamos à marca de 100 mil mortos, e o governo vira o rosto, negligencia. Isso se tornou um espetáculo cotidiano, ao qual a sociedade parece ter se acostumado

Luiz Eduardo Soares, cientista político

O ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello, numa frase um tanto ambígua e que, naturalmente, foi a deixa para as manchetes do início da semana disse: “Não é um número que vai fazer a diferença”. Em seguida, afirmou:

Não é 95, 98 ou 101 que vai fazer a diferença. O que faz a diferença é cada brasileiro que se perde. Nós precisamos compreender como parar o sangramento com diagnóstico precoce, tratamento imediato e suporte respiratório antes a UTI.

Eduardo Pazuello, ministro interino da saúde

Desnecessário dizer que a Covid-19, já em 5 de junho, havia matado mais brasileiros do que a gripe espanhola de 1918. Considerada a maior emergência sanitária até então enfrentada pelo país, esta ceifara a vida de cerca de 35 mil compatriotas.

Estudo publicado (13/08) no Journal of American Medical Association (13/08) sugere que a mortalidade associada a COVID-19, durante a fase inicial do surto em Nova Iorque, foi comparável ao pico de mortalidade observado durante a gripe espanhola de 1918, na mesma cidade.

O epidemiologista Naomar de Almeida Filho, ex-reitor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), publicou (abaixo) nas redes sociais (13/8) um exercício de estimativa do quanto destas mortes poderiam ser evitadas.

Quanto dessa tragédia seria evitável? Do ponto de vista epidemiológico, a comparação com a Nova Zelândia permite avaliar o que seria, no limite histórico, em última instância, possível como hipótese mais otimista. Se o Brasil tivesse tomado TODAS as medidas corretas e SEMPRE no tempo certo, teríamos tido aproximadamente mil mortos. Mas alguém pode argumentar: a Nova Zelândia é uma ilha, isolada, distante, rica, com pouca gente, fácil de controlar. A comparação mais justa seria com países pobres, de grande população, alta diversidade territorial. Vejamos a Índia: se aplicarmos aqui as taxas de mortalidade da Índia, o Brasil teria tido menos de 7 mil mortos. Ah, mas os países orientais têm uma cultura muito diferente da nossa... Então vale comparar com a Argentina, país vizinho, com cultura próxima e problemas econômicos e futebolísticos equivalentes. Se o Brasil tivesse a mesma taxa de mortalidade por Covid-19 da Argentina, teríamos agora 21 mil e não os 104 mil óbitos de hoje. São mais de 80 mil mortes que poderiam ter sido evitadas! O que os argentinos tiveram, e têm, e nós não?

Naomar de Almeida Filho - epidemiologista

Já a Carta Capital foi mais enfática e comparou as 100 mil mortes a outras catástrofes globais já ocorridas, entre elas acidentes aéreos. A Rede Covida também partiu para a metáfora dos aviões que caem diariamente sobre nossas cabeças, sem que (supostamente) nos importemos muito (imagem abaixo).

O colunista Mauricio Stycer, do UOL, analisou como cinco telejornais das emissoras abertas trataram as 100 mil mortes no sábado (08/8) e a conclusão não é das mais agradáveis.

Em uma ponta está a Globo, para quem a pandemia e as 100 mil mortes não podem ser compreendidas sem levar em conta como o governo Bolsonaro está enfrentando a situação. Em outro canto estão Record, SBT e Band, que reconhecem a existência de uma crise sanitária, mas a enxergam como um problema que passa longe da esfera federal. Por fim, há a RedeTV!, que não vê qualquer importância no assunto.

Maurício Stycer - UOL

A Equipe de Jornalismo Visual da BBC preparou (08/08) uma visualização interessante. Tomando por base pontos turísticos das cidades de Rio de Janeiro, São Paulo, Manaus e Fortaleza, verificou qual o espaço necessário para enterrar 100 mil mortos. No Rio de Janeiro, por exemplo, seriam necessárias duas praias de Ipanema em sua total extensão. O Fantástico, em sua edição de 9 de agosto, também havia mostrado um aplicativo que revela a área ocupada por 100 mil pessoas (vivas) a partir do ponto em que você se encontra.

Mas, afinal de contas, quantas mortes seriam evitáveis? Ou quantas vidas não seriam desperdiçadas? Especialistas ouvidos pelo jornal O Povo (08/08) calculam que “se medidas de controle tivessem sido tomadas a partir do dia 1º de junho, quando o País iniciou processo de reabertura em diversos locais”, entre 40% a 50% de vidas teriam sido salvas. Ou seja, no mínimo, 36 mil.

Dados revelados pelo Painel Conass Covid-19 apontam que, “a partir da confirmação da primeira morte pela doença no Brasil, em meados de março, até 20 de junho, pelo menos 74 mil óbitos a mais (“excedentes de mortes”) do que o esperado para o período foram registrados nos cartórios brasileiros”. Aí estão incluídas as mortes por Covid-19 e por outras causas. Os pesquisadores acreditam que eram mortes, em sua maioria, evitáveis, especialmente se houvesse o fortalecimento da Atenção Primária desde o início da epidemia.

Outro estudo, desta vez avaliando o excesso de mortalidade observado nos meses de março a maio de 2020, nas capitais e demais municípios do país, já indicara excesso de 39.146 óbitos para o período estudado, sendo maior entre homens do que mulheres. 

Mas, haveria como fazer diferente? A BBC relacionou nove erros cometidos no Brasil e que nos levaram a 100 mil mortes.

O New York Times informa (13/08) que, nos Estados Unidos, pelo menos 200 mil pessoas morreram a mais do que o normal desde março, a partir de uma análise feita pelo jornal, com base em estimativas dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC). Isso é cerca de 60 mil a mais do que o número de mortes diretamente relacionadas ao coronavírus. O achado pode indicar que as contagens oficiais de mortes estariam subestimando bastante os efeitos gerais do vírus, já que as pessoas morrem por causa do vírus e também por outras causas ligadas à pandemia.

Rápidas

⚡’NOVO NORMAL’: Volta e meia a imprensa publica matérias sobre como lidar com coisas corriqueiras durante e após a pandemia ou sobre novos comportamentos. Destacamos algumas. É seguro ir à piscina? ; cuidados da futura mamãe ; a libido no isolamento; test-drive: correndo de máscara; a febre das cirurgias cosméticas ; o aumento no consumo de álcool e a incrível lição de como lidar com perdas humanas, dada por crianças órfãs de guerra de Uganda. (Essa história realmente me tocou)

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