FC19#18 ☣Desastres naturais não existem

A necessidade de desnaturalizar os desastres naturais, o vai-e-vem das escolas e algo sobre vacinas são nossos destaques.

Eu sou Cláudio Cordovil, e hoje é dia 1 de setembro de 2020.

😫”Todo mundo gosta de acarajé. O trabalho que dá pra fazer que é” - Dorival Caymmi

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⌚Hoje temos uma contagem de 2.295 palavras, ou uma leitura de nove minutos.


Precisamos desnaturalizar os desastres “naturais”

Imagem de Peggy e Marco Lachmann-Anke do Pixabay

Ontem eu acordei com a macaca 🐵! Era como se dizia no meu tempo!

Comecei a pensar, com ira profunda, sobre nosso atual destino comum, sobre o que acredito ser a perda de dois anos (no mínimo) da possibilidade de uma vida plena, já no outono da minha existência, quando os anos disponíveis já começam a rarear. E fiquei com muita raiva.

E aqui preciso mandar o “politicamente correto” (PC) pro diabo que o carregue. Pausa para mandar às favas o PC e chutar o balde.

Minha saúde mental, como a sua, nesse confinamento forçado, na impossibilidade do lazer explícito, do encontro com amigos, da ida ao restaurante favorito, num simulacro de home-office (que na verdade é ralar na emergência sanitária) começa a fraquejar.

Ontem me ocorreu que com a pandemia devemos reaprender a desnaturalizar os desastres ditos “naturais”. E apurar responsabilidades . E eventualmente punir responsáveis pelo momento zero deste cataclisma. Derrubar primeiros-ministros chineses, eventualmente culpados por este crime planetário, já seria um bom começo… Sonhar não custa nada. Sanções econômicas planetárias àquele canto do mundo, coisas do gênero, sei lá. Ou minimamente investigar a fundo as circunstâncias que deram início a esta catástrofe. Morcego a passarinho? Pangolim à milanesa? Ou o quê?

Não acredito que os chineses investigarão o ocorrido com a isenção e interesse necessários. É coisa pra botar debaixo do tapete. O Conselho de Segurança da ONU, pobrezinho, não está nem aí pro caso. A OMS, com o pires na mão, tampouco.

Daí a minha revolta!`Pandemias, quaisquer que sejam elas, também são fruto de ações e/ou omissões humanas. Seja a nível local, na manipulação imprópria de algum animal na China num tugúrio qualquer; seja a nível planetário, no que se convencionou chamar de Antropoceno. Estou especulando. Mas, se a vaidosa Ciência pode tatear agora, na descoberta do que seja esta desgraça viral que nos acomete, eu também posso especular.

Desnaturalizar os desastres naturais. Precisamos falar sobre isso! Enchentes que lembram o Dilúvio nada têm de naturais. Não são coisas de Deus. São coisas também de prefeitos e autoridades e sua brutal incompetência na administração do espaço urbano. São coisa de desigualdades e nossa total indiferença para com o destino daqueles que não tiveram a nossa sorte. São crônicas de mortes anunciadas! A mudança climática, está cabalmente comprovado, também é fruto da ação humana!

Em outubro de 2015 assisti a um evento memorável na Fiocruz, intitulado Desnaturalização dos desastres e mobilização comunitária: novo regime de produção do saber. Teve como mote a maior tragédia “natural” já ocorrida no Brasil. A chuva de janeiro de 2011 na Região Serrana do Rio provocara mais de mil mortes e acendera um alerta sobre a necessidade de estratégias para a redução de risco de desastres naturais. Na época não tínhamos Brumadinho, que também nada teve de natural, e que não chegou a 300 mortos.

Portanto hoje é dia de indignação e revolta. Já deu né? É preciso chutar o pau da barraca! O gato subiu no telhado ! Alongo-me aqui nestas considerações absolutamente necessárias. Voltando… Meu co-orientador no doutorado-sanduíche em Coimbra, João Arriscado Nunes, definiu bem o que seria a “desnaturalização dos desastres naturais”.

Desnaturalizar o desastre significa considerar o conjunto dos processos que intervêm na origem, no desenrolar e nos efeitos do desastre, de modo a ter em conta as consequências da ação humana, da organização social e econômica, do papel das instituições e organizações e das decisões, que são indissociavelmente técnico-científicas e políticas, que configuram as forma de prevenção e de enfrentamento dos desastres e das suas consequências. Deasnaturalizar não significa negar a existência do que se costuma chamar fenômenos ou processo naturais na origem dos desastres, mas considerar a forma como esses fenômenos ou processos são afetados ou modulados pela ação humana, intencional ou não.

João Arriscado Nunes - Centro de Estudos Sociais - Universidade de Coimbra

Não foi por falta de avisar. Laurie Garrett, Prêmio Pulitzer, Nobel do jornalismo, e de quem sou fã de carteirinha, já havia cantado a pedra em 1995, com a publicação de seu fantástico livro intitulado A próxima peste: Novas doenças num mundo em desequilíbrio.

Fica a dica! Desastres naturais nada têm de naturais! Hector Alimonda nos fala da necessidade de uma estratégia social da prevenção. Acho que o conselho também se aplica a pandemias daqui por diante.

Pronto, falei ! Desabafei! Voltamos à nossa programação (a)normal.


🏥Reinfecções e o inevitável ciclo das incertezas científicas*

A semana passada começou com o anúncio, na segunda-feira (24/08), do primeiro caso registrado de reinfecção pelo coronavirus, ocorrido em Hong Kong. Na terça-feira (25/08) foram divulgados mais dois casos semelhantes, desta vez na Bélgica e na Holanda. Em maio, a Organização Mundial de Saúde (OMS) já havia identificado  a possibilidade de que o coronavírus se tornasse endêmico (ou seja, passasse a ser encontrado regularmente em uma determinada área ou população), como o HIV, sem nunca desaparecer. O fato traz prováveis implicações para a descoberta de uma vacina: ela poderá não ser capaz de fornecer proteção para a vida inteira. No mesmo dia, a BBC trouxe esclarecedora matéria sobre o quanto devemos nos preocupar com esta informação sobre casos de reinfecção. A Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) informou na terça-feira (26/08) que ainda não sabia precisar se os casos de reinfecção por Covid-19 registrados em Hong Kong, Bélgica e Holanda poderiam ter algum impacto no desenvolvimento de uma vacina. No Brasil, casos de reinfecção também são investigados (25/08) e o Hospital das Clínicas de São Paulo estuda sete casos do gênero, mas o governo estadual (26/08) informa que não é caso para preocupação: apenas o ‘esqueleto do virus’ teria sido reencontrado. Também no Rio de Janeiro (26/08), um caso é estudado. Na sexta-feira (28/08), foi divulgado o primeiro caso de reinfecção nos EUA, sobre o qual foi publicado um preprint. No mesmo dia, o jornal O Globo publicou informação dando conta de que cientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro estariam investigando dois casos, para saber se seriam de reinfecção ou persistência do virus desde o primeiro teste positivo.


📚Incertezas e hesitações definem rumos da educação*

Não ata nem desata. Quando o assunto é ciência emergente, certezas absolutas não estão disponíveis. Apesar de a Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmar, segundo o Estado de S. Paulo (paywall, 27/08), que as escolas não são o principal motor de transmissão da Covid-19 (ainda que sua capacidade de propagação também esteja ligada ao nível de contágio em cada comunidade), ainda há muita hesitação sobre como tomar a melhor decisão a respeito. Em sua orientação mais atualizada a este respeito, segundo informa Bloomberg (21/08), o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) , de Atlanta, recomenda fechamento parcial das escolas e indica o que fazer com as crianças com infecção. Já as universidades americanas (26/08) estão atribuindo o aumento do número de casos àquelas instituições (paywall) que optaram por retomar suas atividades presenciais.

No Brasil (24/08), estados flexibilizam suas restrições sanitárias, mas, em geral, adiam retomada das aulas presenciais. Já os Secretários de Educação de São Paulo, Pernambuco e Espírito Santo defendem o seu retorno (paywall) ainda neste ano (24/08). A proposta parece apressada. Em estados que fizeram levantamentos (paywall) para saber quantos professores de suas redes de ensino têm mais de 60 anos (ou comorbidades que possam agravar o prognóstico da doença), esta cifra chegou aos 40% (24/08). Estudo conduzido nos EUA, para determinar a prevalência de fatores de risco para doença COVID-19 grave, entre professores e adultos que vivem com crianças em idade escolar, verificou que esta seria de cerca de 50%. Na cidade de São Paulo, o prefeito Bruno Covas afirmou, na quinta-feira (27/08, paywall) que só definirá na segunda quinzena de setembro se aulas presenciais serão retomadas neste ano. Já as universidades públicas e privadas do Estado de São Paulo planejam a retomada de aulas teóricas em salas de aula somente no ano que vem. A pandemia também provocou a suspensão de importantes testes utilizados para o ingresso em universidades do exterior (26/08).

No cabo de guerra vidas x economia, os sindicatos patronais e entidades de classe parecem optar pela segunda. Para o diretor da Associação Brasileira e Escolas Particulares (Abepar), o professor não tem direito de escolher se quer ou não retomar as aulas presenciais (25/08, paywall); a não ser que se enquadre no grupo de risco do novo coronavírus. Na mesma linha, o Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Estado de São Paulo (Sieeesp) entrou na terça-feira (25/08, paywall), com recurso na Justiça de São Paulo para que a volta às aulas nas escolas particulares seja permitida já em setembro na capital paulista.

Outros problemas inusitados começam a surgir, desta vez envolvendo processos de avaliação. Na opinião do Ministro da Educação, Milton Ribeiro, as avaliações do aprendizado dos alunos deveriam ser presenciais. Ele também propôs que a opinião dos pais sobre a decisão a ser tomada acerca de quando retomar as atividades presenciais seja levada em conta em primeiro lugar (paywall, 28/08). Ele tem um abacaxi para resolver: 9% das famílias com crianças e adolescentes entre 4 e 17 anos dizem que elas estão sem realizar qualquer atividade escolar durante a pandemia. É o que revela a pesquisa "Impactos Primários e Secundários da Covid-19 em Crianças e Adolescentes", feita pelo Unicef e Ibope Inteligência. Isto representa 4 milhões de famílias no país.

Entre a cruz e a caldeira. De acordo com Chris Whitty, consultor médico chefe do Reino Unido, para as crianças, perder aulas é pior que o contágio pelo coronavirus. De fato, ao menos um estudo, conduzido no estado americano de Rhode Island, verificou que a transmissão em creches é limitada. Pode ser que Whitty tenha razão. Especialistas (25/08) têm alertado para os efeitos, sobre a saúde mental de crianças e jovens, de sua sensação de isolamento de seus pares, como resultado do lockdown e do fechamento das escolas.

Um giro semanal pelo mundo. A Coréia do Sul ordenou o fechamento de escolas da capital Seul (25/08). Agora, com a exceção dos estudantes do último ano do ensino médio, todos os alunos daquele país terão aulas online até 11 de setembro. Já as autoridades sanitárias italianas (27/08) esperam um "leve incremento" nos novos casos do coronavírus com a retomada das aulas presenciais no país, marcada para o dia 14 de setembro deste mês.

Como jornalistas devem cobrir o abre-e-fecha das escolas? Kellie Schmitt, do Center for Health Journalism ouviu coleguinhas em busca de algumas sugestões de pauta. A matéria é focada na realidade norte-americana, mas muita coisa se aproveita para a situação brasileira.

💉As vacinas: entre o feijão e o sonho*

Nesta semana, Naomar de Almeida Filho botou a bola no chão, em entrevista para o Instituto Humanitas (Unisinos) (26/08) para nos lembrar que a vacina não é bala de prata:

A vacina é mais uma possibilidade que, provavelmente, vai compor todo um arsenal de estratégias de superação do problema complexo que é a pandemia. Para problemas complexos, não existem soluções simples. Medicamentos e combinações farmacológicas poderão aumentar a eficiência clínica no tratamento de casos graves, reduzindo sequelas e mortalidade, mas não se espera o que chamam de “bala de prata”. Esperar que seja assim é, pelo menos, ingenuidade.

Naomar de Almeida Filho - Epidemiologista

Marco Krieger, vice-presidente da Fiocruz, disse ao O Globo (28/08) que “a vacina deve ser encarada como Plano B (…) uma vez que um primeiro lote de 15 milhões de doses só está previsto para janeiro de 2021, e sem garantia de registro imediato pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).  Por ora, observa ele, “o plano A deve continuar sendo a testagem para detecção da infecção, o uso de máscaras e medidas de distanciamento social”. Akira Homma, assessor científico sênior de Bio-Manguinhos/Fiocruz, explicou em detalhes (24/08) os caminhos que nos levarão a uma vacina.

A BBC cravou suas apostas em uma vacina já para 2021. E apresenta nove razões para você acreditar nisso (26/08). Há uma disputa desigual em curso e, nela, os países ricos já encomendaram, na pré-venda, 2 bilhões de doses, segundo nos informa a revista Nature. Pode mais quem paga mais. A matéria também esclarece que “alguns países de renda baixa e média fecharam eles próprios acordos de compra antecipada”. É o caso do Brasil e da Indonésia, que “têm acordos para comprar milhões de doses de vacinas que passam por testes de fase III em seus países”.

Estados Unidos, Japão, Reino Unido e União Europeia, fecharam suas próprias compras para assegurar milhões de doses de imunizantes sem se importar com os alertas da OMS sobre nacionalismo de vacinas. Para a entidade, informa o Estadão, “as compras individuais suprimem a distribuição pelo mundo, o que levaria à maior duração da pandemia globalmente” (paywall, 28/08). Tome-se como exemplo o caso da União Européia: o bloco europeu planeja vacinar inicialmente 40% de sua população (paywall, 26/08). Na avaliação da OMS, isso pode frustrar os planos da entidade de promover uma imunização mais equitativa em todos os países do mundo.

Destaques da Rede CoVida

Tratamentos da Covid-19: O que se sabe até agora?

Boletim CoVida #8: Integração Vigilância Epidemiológica e Atenção Primária à Saúde no enfrentamento da pandemia

*Notas parcialmente elaboradas com informações do Serviço de Jornalismo e Comunicação do Instituto Oswaldo Cruz

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